Como a educação infantil pode reduzir a desigualdade?

15 de janeiro de 2020 // Blog

O contexto educacional é marcado por constantes indagações sobre o papel da educação infantil e seu método de trabalho. A educação infantil é tão importante quanto às demais etapas de ensino? A saída da criança do ninho familiar é realmente fundamental? Afinal, o que é a educação infantil?

Há consenso na literatura que a educação infantil deixou de ter um papel exclusivamente de assistência social: cuidar das crianças enquanto os pais e/ou responsáveis trabalham. A unidade educacional aparece como meio de equalizar as oportunidades de aprendizagem para todos e reduzir as desigualdades. Isto é, dado que cada indivíduo possui diferentes contextos e vivências desde a gestação, a exposição de todo ser criança às práticas pedagógicas serve como um agente compensatório dos incentivos que não são recebidos em casa.

É na primeira infância (de 0 a 6 anos) que ocorrem as principais desenvoluções nas habilidades cognitivas e não cognitivas das crianças. Esse período é sinalizado como etapa de fortalecimento das redes neurais e ponte para o futuro dos aprendizados. Imagine uma construção: a fase da primeira infância é como a fundação de uma edificação e as habilidades são como os alicerces. São esses elementos que permitirão um desenvolvimento pleno das aptidões e suficiências dos pequenos em todo o resto de suas vidas. É dessa forma que a equipe do Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard, exemplifica a importância do trabalhar na primeira infância. Além disso, o grupo, liderado pelo Professor Jack Shonkoff, diretor do centro de pesquisa, afirma que a entrada na educação infantil faz parte do processo de socialização das crianças. Em outras palavras, é a oportunidade de desenvolver a dimensão do “o Eu, o Outro e o Nós” no dia-a-dia.

Enquanto componente da construção cognitiva, há o desenvolvimento de um eminente elemento do intelecto: a Função Executiva. Ela é uma espécie de emissor de comandos, em outras palavras, quem aperta a tecla do fazer: “Coma o brócolis”, “Responda a chamada”, “Chute a bola” etc. Esse aspecto é parte crucial, uma vez que ao decorrer de toda a vida é preciso lidar com uma série de imperativos como esses. É a Função Executiva que está diretamente ligada ao autocontrole do indivíduo e à capacidade de lidar com eventos enquanto se é inundado por inúmeros estímulos simultaneamente. De forma prática, é a faculdade mental que guia o foco, a autogestão, o planejamento e outras demais formas de administração interna/individual. Todas essas competências estão interligadas e possuem grande impacto a longo prazo. E é na vida adulta que se colhem os resultados.

Fonte: Construindo o sistema de “Controle de Tráfego Aéreo” do cérebro: Como as primeiras experiências moldam o desenvolvimento das funções executivas. Center on the Developing Child da Harvard University. Tradução realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.

Em média, pessoas que tiveram um desenvolvimento sólido em seu autocontrole são mais produtivas, posto que possuem a capacidade de se organizar, manter o foco e lidar com numerosas demandas. Além disso, ao longo de toda a vida escolar, pessoas com essas habilidades mais desenvolvidas são mais eficientes durante o aprendizado cognitivo e não cognitivo. Ou seja, podem ter maior desempenho em linguagem e matemática e em habilidades socioemocionais, respectivamente. Indivíduos maduros fazem parte da parcela populacional que efetivamente trabalha e é no mercado de trabalho que se afloram os diferenciais salariais. Esse retorno se dá em forma de melhores oportunidades no mercado de trabalho como uma forte ferramenta na diminuição das desigualdades. A literatura também mostra que indivíduos com maior autocontrole possuem menor propensão de entrar no mundo do crime e em comportamentos de risco envolvendo substâncias químicas, independente da inteligência e classe social dos mesmos.

Mais uma vez, qual o papel da educação infantil?

Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a educação infantil tem um papel conjunto entre o cuidado e o educar. É função da instituição permitir que as crianças tenham oportunidades de aprendizagem e experiência. Uma vez que é dever do Estado garantir a educação infantil, é direito da criança brasileira ter resguardada a educação como meio de crescimento em sua vivência. O fortalecimento das habilidades nessa etapa da vida chancela a produtividade da força de trabalho (através de competências como função executiva, autorregulação e sociabilidade: melhoria nos trabalhos, demandas, concentração, foco, distrações, trabalho em equipe, gestão das emoções etc). É a partir de todo esse desenvolvimento que janelas são abertas, oportunidades são dadas, barreiras são superadas e desigualdades reduzidas.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2017.

BRASIL, Constituição (1988). Constituição da República Federal do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

MOFFITT, Terrie E. et al. A gradient of childhood self-control predicts health, wealth, and public safety. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 108, n. 7, p. 2693-2698, 2011.

SHONKOFF, Jack P. et al. Building the brain’s “air traffic control” system: How early experiences shape the development of executive function. Contract, v. 11, 2011.

Center on the Developing Child (2012). Executive Function (InBrief).

AUTOR DO TEXTO

Izabelle Marques Silva de Carvalho

Izabelle de Carvalho

Graduanda em Ciências Econômicas pela FEA-RP / USP.