LEPES entrevista: Projeto Eu Posso te Ouvir

14 de novembrde 2019 // Entrevistas

Dando início a uma série de textos criados a partir de entrevistas com professores, pesquisadores e gestores, o Lepes entrevistou a diretora Aurilene Marcelo da Silva, formada em Pedagogia e Letras e especializada em Língua e Literatura pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), é professora efetiva do Município de Sobral, interior do Ceará, atuando também como coordenadora pedagógica e diretora escolar. Em paralelo a sua formação, possui interesse em mudar a realidade de alunos através de projetos pedagógicos, destacando o projeto Eu Posso te Ouvir, que foi formulado junto com uma equipe intersetorial.

Dentro do contexto escolar, a violência ainda se mostra presente, seja ela física, verbal ou autoprovocada. A escola pública municipal de Sobral Netinha Castelo se insere neste contexto em que a violência e criminalidade estiveram presentes. Ao assumir o cargo da diretoria escolar, Aurilene percebeu marcas de violência autoprovocada em uma parcela dos alunos e constatou a necessidade de implementar um projeto intersetorial para tratar a temática da violência escolar, em particular a autoprovocada.

Foi diante deste cenário que surge o projeto Eu Posso te Ouvir, o qual busca ligar os setores da educação, da saúde e da assistência social. Assim, o primeiro passo foi o contato com o Centro de Saúde da Família – CSF do bairro da escola para auxiliar a elaboração de ações preventivas e de conscientização. Para isso, o CSF encaminhou duas profissionais, uma psicóloga e uma assistente social, das equipes de Residência Multiprofissional em Saúde Mental e Residência Multiprofissional em Saúde da Família, respectivamente, as quais acompanharam as salas e realizaram rodas de conversa para abordar os motivos de pensamentos suicidas e da automutilação. Dentro dessas conversas, os próprios alunos apontaram alguns aspectos responsáveis por tais pensamentos: o bullying, a violência e o preconceito, além de questões psicossociais.

Para tratar sobre esses assuntos, era necessária a complementação do currículo escolar para que fossem abordadas algumas temáticas fundamentais para os alunos, como paz, respeito, resiliência e colaboração. Essas pautas foram inseridas nos currículos de Geografia, História e, principalmente, de Artes e Ensino Religioso. Toda alteração foi pensada para que os alunos estivessem em contato com os temas pelo menos uma vez na semana.

O engajamento dos alunos foi tanto que eles criaram um jornal da escola. O projeto Eu Posso te Ouvir foi o primeiro assunto abordado, dando destaque para os impactos no ambiente escolar, mostrando que a escola estava se tornando um espaço legítimo e seguro, tanto fisicamente quanto psicologicamente para os alunos.

A complementação do currículo escolar foi indispensável, mas para sua efetivação foi preciso a atuação dos três agentes principais da escola: os alunos, professores e a família. O foco do projeto foi ouvir os alunos e, a partir da escuta, lidar com as questões expostas. Sendo assim, foram realizadas duas ações centrais: atendimento individualizado e grupo de conversa.

A primeira ação consistiu em realizar atendimentos individualizados aos alunos que se automutilavam e também para aqueles mais agressivos, escutando seus questionamentos e guiando-os com ajuda profissional preparada para lidar com as situações apresentadas. Paralelamente aos atendimentos, foi criado um grupo de conversa com finalidade terapêutica, onde os alunos que pararam de se automutilar podiam compartilharem como foi possível trabalhar suas adversidades, criando uma “onda do bem” e influenciando positivamente outros alunos. Essa ação também auxiliou os psicólogos a atuarem, entendendo os sentimentos e emoções dos jovens, além de diminuir a violência, tanto entre eles como a autoprovocada, ainda que a escola esteja em uma área notoriamente violenta.

Além de trabalhar com os alunos foi necessário envolver também os professores e as famílias. A importância da participação dos professores no projeto se dá pela necessidade de abordar temáticas extracurriculares dentro de suas aulas e pela disposição em ouvir os alunos fora da sala de aula, se disponibilizando para conversar com os alunos nos intervalos e em outros momentos livres, sendo identificados com roupas específicas. Nesse sentido, a integração da temática entre as disciplinas era essencial, dando destaque para a interdisciplinaridade do projeto. Todavia, nem todo professor se interessou em participar das ações, seja por falta de tempo, motivação ou interesse no assunto, reforçando a importância da participação voluntária, evitando a involução do projeto. Para torná-los aptos a atender os alunos, a escola realizou uma Educação Permanente com os professores junto com a rede de atenção e proteção ao adolescente.

A família se encontra como um aspecto fundamental para a educação e ensinamento sobre valores, emoções e sentimentos para as crianças e jovens. Porém, por outros fatores, este processo pode encontrar falhas, fazendo com que eles apresentem comportamentos agressivos e auto prejudiciais. Para aproximar as famílias à escola, a diretoria realizou uma reunião com os pais e responsáveis apresentando as perspectivas dos estudantes em relação a seus sentimentos e como eles os expressam. O resultado foi a diferença entre a visão dos alunos e das famílias quanto aos sentimentos dos jovens, muitas vezes as famílias tinham uma falsa sensação de conhecer os sentimentos de seus filhos, fazendo que esse cenário pudesse mudar a partir da reunião. Entretanto, a realidade muda de uma família para outra e dependendo de cada problemática era preciso encaminhar alguns casos aos órgãos competentes, como Conselho Tutelar, Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS), entre outros, evidenciando a importância do trabalho intersetorial.

O projeto não se concentrava nos resultados observados em números, mas nos efeitos de melhora psicológica dos estudantes através do desenvolvimento emocional e dos seus sentimentos. Ainda assim, no decorrer das ações, a diretora pôde perceber que o número de alunos que se mutilavam havia reduzido a zero e as brigas assistidas que aconteciam dentro da escola deixaram de existir. Além de ter iniciado um projeto inovador, a Aurilene contou com o amparo do governo estadual, o qual já estava estipulando metas intersetoriais para reduzir a violência, através do projeto Ceará Pacífico, que tem como foco reduzir a violência no estado. A convergência de pensamentos do governo com a diretora e o auxílio intersetorial da saúde e assistência social favoreceu a realização do projeto.

Hoje, Aurilene atua no programa Educar para Valer em parceria com a Fundação Lemann e está escrevendo um livro sobre o projeto a fim de expandir a ideia para outras escolas para que todos os alunos sintam que a escola é um espaço legítimo e seguro para eles.